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Ao longo da minha prática entre projeto e ensino, fui percebendo que muitos espaços falham antes mesmo de serem habitados. Falham na forma como são pensados. No design de interiores, há uma tendência persistente para começar pelos objetos e adiar a luz. Mas essa ordem compromete tudo o que vem depois. Porque a luz não revela o espaço. A luz é o que o constrói.
Há um erro recorrente no design de interiores que raramente é assumido: projetam-se espaços a partir dos objetos e não da luz. Escolhem-se materiais, cores, mobiliário — e só no fim se pensa na iluminação, como se fosse um detalhe técnico ou decorativo. Não é. A luz não serve apenas para revelar o espaço. É o que o constrói.
Ao longo dos anos, entre a prática profissional e o ensino, fui percebendo que o verdadeiro desafio não está em desenhar mais, mas em aprender a ver melhor. E ver luz, verdadeiramente, continua a ser uma das competências mais negligenciadas no design de interiores.
"Aprender a ver luz é aprender a projetar com intenção."

Vivemos numa cultura que privilegia a imagem imediata. Estamos rodeados de referências visuais, de espaços aparentemente perfeitos, equilibrados, prontos a consumir. Mas raramente questionamos aquilo que torna essas imagens possíveis. No design de interiores, essa superficialidade traduz-se numa atenção excessiva ao objeto e numa desvalorização quase sistemática da luz.
O problema é que a luz não se fixa numa imagem. Não se resume a um ponto de vista. Muda ao longo do dia, reage aos materiais, transforma volumes, cria profundidade ou apaga-a. É dinâmica, relacional e, muitas vezes, invisível até falhar.
"Ver luz continua a ser uma das competências mais negligenciadas no design de interiores."
É por isso que projetar com luz não é escolher candeeiros. É desenhar atmosferas, definir hierarquias, orientar o olhar e o corpo. A luz tem temperatura, direção, intensidade e tempo. E é precisamente nessa complexidade que reside o seu potencial — e também a sua dificuldade.
Mas há algo ainda mais fundamental: a luz tem um impacto direto na forma como vivemos os espaços. Influencia o nosso humor, a nossa energia, a nossa capacidade de concentração e descanso. Afeta a qualidade de vida de forma subtil, mas constante. E, muitas vezes, é a luz que fixa as memórias que associamos a determinados lugares — não apenas aquilo que vemos, mas aquilo que sentimos quando lá estamos.
"Projetar com luz não é escolher candeeiros."
Ao longo da minha carreira, tive a oportunidade de acompanhar uma transformação profunda na forma como trabalhamos a iluminação. A transição das fontes de luz convencionais para a tecnologia LED não foi apenas uma evolução técnica — foi uma mudança de paradigma.
Ainda hoje se recorre, em muitos casos, ao retrofitting, adaptando fontes LED a luminárias de desenho mais tradicional. Mas o verdadeiro impacto do LED está na liberdade que introduziu: na possibilidade de integrar luz em superfícies, em detalhes construtivos, em peças de mobiliário.
A luz deixou de ser um ponto fixo e passou a ser uma camada contínua, moldável, quase arquitetónica. E isso transformou por completo a forma como percebemos e desenhamos o espaço. Essa transformação é visível também fora do contexto de projeto.
"É a luz que fixa as memórias que associamos a determinados lugares."
Ao longo dos últimos anos, tenho sido presença assídua em feiras e certames da especialidade — como a Maison & Objet — onde se torna evidente um crescente reconhecimento da iluminação como elemento estruturante. Mais do que um complemento estético, a luz surge cada vez mais como parte integrante da filosofia e do conceito dos projetos apresentados. Não se trata apenas do que se vê, mas de como se sente.
Ainda assim, tanto em contexto profissional como académico, há uma pergunta que me é colocada de forma recorrente: num projeto de interiores, entre a paleta cromática e o conceito de iluminação, o que deve ser definido primeiro? A minha resposta é sempre a mesma: essa separação é um erro.
"Pensar luz sem cor é ignorar o seu impacto real."
A cor não existe sem luz. E a luz não é neutra sobre a cor. Um mesmo tom pode ganhar profundidade, perder saturação ou transformar-se completamente consoante a temperatura e a incidência luminosa. Pensar cor sem luz é pensar em abstrato. Pensar luz sem cor é ignorar o seu impacto real.
Por isso, mais do que escolher o que vem primeiro, é fundamental compreender que ambos devem ser pensados em simultâneo. São camadas interdependentes de um mesmo sistema. Quando dissociadas, comprometem o resultado. Quando articuladas, elevam o espaço de forma quase imperceptível, mas decisiva.
"Ensinar iluminação exige treino do olhar, do corpo e da experiência direta do espaço."
Ensinar iluminação é, em grande parte, ensinar algo que não se fixa facilmente. Não se desenha apenas em planta, nem se resolve apenas em software. Exige treino do olhar, do corpo e da experiência direta do espaço.
Vejo frequentemente alunos com uma grande capacidade de absorção visual, familiarizados com referências, estilos e linguagens, mas com dificuldade em pensar a luz de forma estruturada. Sabem reconhecer um ambiente “bonito”, mas nem sempre conseguem explicar porquê, nem reproduzi-lo de forma consciente.
"Um espaço não é aquilo que vemos, é aquilo que a luz nos permite sentir."
É aqui que o ensino precisa de se reposicionar. Não basta ensinar ferramentas ou soluções técnicas. É necessário ensinar a observar, a testar, a errar, a ajustar. Criar consciência da luz natural, da luz artificial, dos contrastes e das transições. E, sobretudo, da relação constante entre luz, cor e material.
Aprender a ver luz é, no fundo, aprender a projetar com intenção. No fim, um espaço não é aquilo que vemos — é aquilo que a luz nos permite sentir. E talvez o maior desafio do design de interiores hoje não seja criar mais imagens, mas formar um olhar capaz de ir além das próprias imagens.
Não existem fórmulas universais na iluminação. Cada espaço tem as suas necessidades, cada contexto impõe as suas condições e cada pessoa responde à luz de forma única. Projectar com luz é, acima de tudo, saber escutar essas diferenças e desenhar a partir delas.
Sobre Rita Vasco
É professora no curso de Design de Interiores. Licenciada pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, desenvolve atividade profissional nas áreas da arquitetura, design de interiores e iluminação. Co-fundadora do Atelier AV, fundadora do Riva Studio Lisboa, participa regularmente em publicações e congressos. Assina projetos com identidade e intenção. Faz orientação personalizada de projetos finais.