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Moda não é prompt

22 JUN
Design de Moda
LSD Insights
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A Inteligência Artificial (IA) entrou na moda como um choque e expôs mais medos do que visões. Escrevo este texto como manifesto e como posição: a IA não ameaça a criatividade, ameaça a ausência dela. Não é um texto sobre tecnologia. É um artigo de opinião sobre autoria, responsabilidade cultural e o papel do designer num mundo automatizado.

"Eficiência nunca foi sinónimo de visão."

A IA não é criativa; é eficiente
A Inteligência Artificial (IA) chegou ao design de moda e gerou o pânico: “Vamos ser substituídos.” “A criatividade morreu.” “Os algoritmos vão desenhar melhor do que nós.” Estas frases dizem menos sobre a tecnologia e mais sobre o medo de não ter uma voz própria. Este é um manifesto para designers que recusam ser operadores de software e insistem em ser autores. A IA não é criativa; é eficiente. E eficiência nunca foi sinónimo de visão.
A IA aprende com o passado. Compila imagens, estilos, dados, referências e tendências. Recombina. Acelera. Simula. Mas não vive, não sofre, não deseja, não tem memória corporal, não tem infância, não tem frustração, não tem raiva, não tem utopia. E sem tudo isso, não há ruptura. Não há gesto radical. Não há cultura. Se o teu trabalho pode ser substituído por um algoritmo, então nunca foi verdadeiramente criativo. Foi decorativo.

"O designer não é um produtor de imagens. É um editor cultural. Um estratega simbólico. Um autor."


Moda é linguagem, não imagem
A Moda não é apenas roupa. É a linguagem, é política, é identidade, é território simbólico. Um vestido pode ser um manifesto feminista, uma silhueta pode ser um comentário social, uma coleção pode ser uma crítica ao capitalismo, ao género, ao corpo, ao poder. A IA não tem posição, não toma partido, não corre riscos, não pode ser subversiva. Mas tu podes.
O designer não é um produtor de imagens. É um editor cultural. Um estratega simbólico. Um autor. A IA pode gerar uma coleção. Só tu podes decidir por que essa coleção existe. A IA pode gerar uma silhueta. Só tu podes decidir o que ela diz sobre o corpo. A IA pode simular uma campanha. Só tu podes decidir qual a narrativa que queres divulgar ao mundo.

"O perigo é a homogeneização estética."

A ferramenta não é o perigo
A História do Design está cheia de pânicos tecnológicos. A Fotografia ia matar a pintura. O Photoshop ia matar o fotógrafo. O CAD ia matar o desenho. O Instagram ia matar o editor de moda. Nada disso aconteceu. O que aconteceu foi uma coisa diferente: os criadores que não se adaptaram, desapareceram, e os que souberam usar as ferramentas, redefiniram a linguagem.
A IA é uma ferramenta brutal. Pode gerar milhares de variações em segundos. Pode prever tendências. Pode simular materiais, cores, mercados, corpos. Pode poupar-te tempo. Tempo para pensar. Tempo para conceptualizar. Tempo para questionar. Mas se usares a IA apenas para gerar imagens bonitas, estarás a abdicar do teu papel enquanto designer.
O perigo não é a inteligência artificial. O perigo é a homogeneização estética. É um mundo cheio de coleções visualmente perfeitas, mas conceptualmente vazias. É o feed infinito de imagens sem pensamento. É a estética sem ética. Num cenário onde qualquer pessoa pode gerar “moda” com um prompt, o verdadeiro luxo passa a ser o pensamento, a visão e a autoria.

"A IA não vai substituir designers. Aliás, vai substituir designers sem pensamento."


Quem é o designer do futuro?
O futuro do designer não é competir com a IA em velocidade. É competir em profundidade. Ser designer em 2030 não será desenhar mais rápido, mas sim pensar mais longe. Não será gerar mais imagens, mas antes construir mais significado. Não será seguir tendências, mas sim criar sistemas de valor.
A IA obriga-te a uma pergunta crucial: O que é que só um humano pode fazer no design de moda? A resposta é simples: Assumir responsabilidade cultural. A IA não responde por “greenwashing”. Não responde por exploração laboral. Não responde por representação do corpo. Não responde por diversidade, inclusão ou exclusão. Não responde por ideologia. Tu respondes.
O designer do futuro é um mediador entre tecnologia, cultura e sociedade. Um curador de dados, um editor de algoritmos, um autor de narrativas, um crítico do próprio sistema que utiliza. Se usares a IA sem pensamento crítico, tornas-te um mero operador de máquina. Se questionares a IA, tornas-te autor de uma nova linguagem. A criatividade nunca foi sobre ferramentas. Sempre foi sobre visão. As ferramentas mudam. A visão permanece.

"Escolhe ser perigoso, conceptual, crítico. Escolhe ser autor."

A IA não vai substituir designers. Aliás, vai substituir designers sem pensamento.
Vai substituir quem copia tendências sem questionar. Vai substituir quem confunde estética com conceito. Vai substituir quem desenha sem posicionamento.
A IA nunca substituirá quem usa o design como veículo de comunicação de valores. Num mundo onde tudo pode ser gerado automaticamente, a única coisa que não pode ser automatizada é a consciência.
Escolhe ser perigoso, conceptual, crítico. Escolhe ser autor. Usa a IA como um assistente, não como um concorrente. Como um acelerador, não como uma desculpa. Como um espelho, não como uma identidade. Porque a IA não tem alma, não tem corpo, não tem memória, não tem medo, não tem desejo. E a Moda sempre foi sobre corpo, memória, medo e desejo. A Moda tem intenção. E o Futuro não pertence aos algoritmos, pertence aos designers que souberem comandá-los.

Por Alex Cadilhe, professora de Design de Moda e fundadora da Logosystem Design

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